sábado, 30 de abril de 2011

Ser ou estar co-dependente?

 Silvana Sobral Pinto Dias*
Resumo:
Controle , manipulação e sofrimento são as máximas de um relacionamento co-dependente, que apesar de confundir-se com a neurose obsessiva, possui particularidades importantes, muito similares aos dependentes químicos.
Esse trabalho se propõe  analisar a co-dependência pelo víeis neuroquímico, filosófico e psicanalítico, onde a  pergunta que se faz é como superar mais essa herança familiar?
            Palavras-chave: Relacionamentos;Controle;Anestesia; Droga;Compulsão; Negação.
Introdução:
Em 1981, foi introduzido o conceito de co-dependência por Wegscheider (1985), caracterizando uma obsessão familiar sobre o comportamento do dependente químico, visando, no controle da droga, ao eixo da organização familiar. O usuário era analisado como dependente e o familiar co-dependente .
Posteriormente, Andolfi trouxe o conceito do paciente identificado , no qual o sistema familiar necessitaria do outro como forma de pedir ajuda, uma vez que a pessoa sintomática estaria em um papel em que provavelmente  o outro membro da familia não assumiria.(Laranjeiras at al,2004)

Assim como os dependentes químicos se drogam de substâncias psicoativas, os co-dependentes se drogam do outro!
Num sentido mais amplo, a co-dependência pode ser definida como uma adicção a pessoas , comportamentos ou coisas, e a ilusão de tentar controlar os sentimentos interiores através da interferência direta aos acontecimentos exteriores.
 Nessa co-dependência inter pessoal, ele se envolve com o outro de um modo tão elaborado que o próprio sentido de sua identidade é brutalmente restringido, superlotado pelos problemas e pela identidade desse outro.
            Êxtase e anestesia, onde o “eu” se perde na imensidão da vida, e/ou da doença do outro!
            Além disso os co-dependentes podem agir , puxando para si não apenas outra pessoa, mas também substâncias químicas (basicamente álcool ou drogas) ou coisas : dinheiro, comida, sexualidade ou trabalho. Eles lutam sem tréguas para preencherem o grande vazio emocional que trazem dentro de si. 
            Sou ou estou co-dependente?
            A  co-dependência caminha paralela à dependência química. Os conceitos de dependência e co-dependência não se restringem mais ao álcool; ele inclui toda a gama de substâncias químicas: cocaína, tabaco, heroína e outras. Essas “outras” incluem na prática qualquer obsessão compulsiva, uma coisa ou um comportamento levado ao extremo.
            Distúrbio na alimentação (bulimia e anorexia por exemplo) , ninfomania, ataques de raiva, apego doentio ao trabalho, a compulsão ao consumo ou um modo de vida com leis  super rígidas.
 Renuncia a aspectos da sua própria vida oferecendo-se como um “lugar vazio”, uma “tela de projeção” para a personalidade do outro.
            Todo o investimento terapêutico vai para o dependente químico que assume o lugar de centro dessa tragédia familiar, e o lugar desse familiar é a sombra e o esquecimento.
            Entende-se a co-dependência  como uma doença não somente física, emocional e espiritual, mas também como uma doença familiar, de natureza multigeracional, onde a família é parte integrante de sua gênese, de sua evolução e de seu tratamento. A séria disfunção da família fundadora vai ser absorvida pelas crianças da família, criando uma onda de sofrimento que se estenderá cada vez mais longe com o passar dos anos.
            As estatísticas dizem que pelo menos quinze milhões de americanos são alcoólicos ou dependentes de drogas. Acredita-se que cada alcoólico causa um forte impacto em pelo menos quatro outras pessoas, tais como esposas ,os filhos e colegas de trabalho. Existem além disso uma estimativa de que mais ou menos vinte e oito milhões de americanos são filhos de adultos de alcoólicos e ainda sofrem da co-dependência que vivenciaram na infância.
            E isso é só em relação ao álcool. Esses dados não se referem à co-dependência gerada por outras adicções e compulsões além  da dependência química; e são portanto extremamente conservadores. O verdadeiro número de co-dependente é portanto muitíssimo maior. (Toffoli at al, 1997 )      
            Assim como na dependência química, ainda são poucas as referências para se fechar algum conceito sobre a co-dependência.
            O que se sabe é que os consultórios estão recebendo a cada dia, mais pessoas com identidades desestruturadas e em sofrimento agudo; ansiosas e com os limites distorcidos em relação a si próprio e ao outro. Envolvidas em relacionamentos com personalidades perturbadas , quimicamente dependentes ou com outro co-dependente.
Sentem-se diferentes das outras, desconfortáveis quando recebem elogios, isoladas, sozinhas ou vazias, mesmo na presença de outros .
Apresentem excessiva confiança na negação, são impulsivas, deprimidas, hiper vigilantes, ou foram vítimas de repetidos abusos físicos (maus tratos na infância) ou sexuais ;estressadas e com doenças físicas ou psicossomáticas .
Podemos também considerar um co-dependente, aquele  que permaneceu em um relacionamento principal com um dependente químico na ativa ,por pelo menos dois anos, sem procurar ajuda profissional.
            Apresentam outros sintomas como autocrítica exagerada, dificuldades para
expressarem seus sentimentos, de aceitarem ajuda e dizerem não. Possuem a crença que se pudessem mudar os outros, suas vidas melhorariam.
            Norwood (1985), define um co-alcoolatra como “alguém que tenha desenvolvido um padrão doentio ao se relacionar com outros, como resultado do envolvimento íntimo com alguém que tenha a doença do alcoolismo”. Ele combina essa definição com sintomas primordiais intrapsíquicos, tais como baixa auto-estima, necessidade de ser útil, ânsia de mudar os outros e de controlá-los e uma disposição para sofrer.
            Como foram observados , os sinais e sintomas da co-dependência são tão abrangentes e diferentes que nenhum indivíduo apresenta todos eles. Os co-dependentes que ainda estão na negação irão freqüentemente apontar aspectos da doença que não se encaixam neles. Usam tal evidência negativa para provar que não são co-dependentes, ou para minimizar a extensão de sua doença .
            Estas pessoas entrarão em contato e se libertarão desses sentimentos, quando conseguirem desarmar este sistema psíquico e social , principalmente o da negação,reprimidos.
Com isso poderão trazer à tona as regras que governam as famílias quimicamente dependentes, como as três  que Balck (1981) cita no livro “It will never happen to me”. São elas: “não fale, não confie, não sinta”. Estas regras codificam as proibições tácitas de falar honestamente sobre o problema. Para serem aceitos ,deverão se submeter a estes princípios, ou serão tratados como desviantes, mesmo com um comportamento mais sadio do que a norma da família. (Black, 1981)
O que é o amor?
Pelo víeis neuroquímico:
            “Se você já se apaixonou alguma vez, provavelmente chegou a pensar em classificar esse sentimento como um vício. Os cientistas estão descobrindo que o mesmo processo químico que ocorre nos dependentes químicos, ocorre quando nos apaixonamos por alguém”.
            Algumas pessoas podem ser viciadas no “barato” do amor. Elas precisam da sensação da dopamina, norepinefrina e feniletilaminha, tão parecidas com a sensação gerada pelas anfetaminas. Como o corpo adquire uma certa tolerância a essas substâncias, é necessário cada vez mais para dar o “barato”, então pulam de relação em relação sempre em busca de mais.
            O amor também é um estado mental químico que faz parte dos nossos genes e é influenciado pela nossa criação , ou melhor pelas influencias parentais.
            O amor romântico nos estimula e motiva, e as substâncias químicas que percorrem o nosso cérebro, quando estamos apaixonados, têm várias finalidades, mas seu objetivo primordial é a continuação da nossa espécie, formar famílias e ter filhos. Depois estas substâncias mudam para nos encorajar a permanecermos juntos.
 Poderíamos também considerar que amor seria uma “sopa química de neurotransmissores”, a serviço dos nossos registros afetivos ou lembranças mnêmicas.
Na adolescência , logo após a puberdade, junto com a pulsão sexual, o estrogênio e a testosterona ficam ativados em nossos corpos pela primeira vez,e propiciam o desejo de experimentar o amor.
Na fase da união ou compromisso, quimicamente precisamos das oxitocinas , vasopressinas e endorfinas além de todo um construto emocional que veremos mais adiante, para nos mantermos firmes nesse propósito de união.Essas substâncias são liberadas quando fazemos sexo.
Quando estamos apaixonados várias substâncias químicas correm na nossa corrente sanguínea; estrogêneo e testosterona nos “impulsionam” para nos aventurar no mundo do “amor”. A tontura inicial do início da paixão e a aceleração do coração, rubor da pele e umidade nas mãos ocorrem pela dopamina, norepinefrina e feniletilamina que eliminamos.
A dopamina  aciona o sistema de recompensa cerebral , produzindo felicidade, paixão e vício. A norepinefrina é semelhante à adrenalina e causa excitação e aceleração no coração, aumento da atenção, memória em curto prazo, hiperatividade, falta de sono e comportamento orientado.
Os dois juntos segundo Helen Fisher, antropóloga e pesquisadora do amor na Universidade Rutgers ,causam elevação, energia intensa, falta de sono, paixão, perda de apetite e foco único. É o direcionamento biológico de focar em uma única pessoa. Em outras palavras, fazem com que o casal se concentre no relacionamento e deixem de lado todo o resto.
Nesta fase  os apaixonados têm níveis baixos de serotonina, e os circuitos nervosos associados à avaliação dos outros são reprimidos, equivalentes aos encontrados em pessoas com transtorno obsessivo compulsivo.
No amor romântico, quando duas pessoas fazem sexo, a oxitocina é liberada, o que ajuda a unir os parceiros. Segundo pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, o hormônio oxitocina  está associado  à habilidade de manter relacionamentos interpessoais e laços psicológicos saudáveis com outros indivíduos.
A vasopressina, um hormônio antidiurético, é outra substância associada à formação de relacionamentos duradouros e monogâmicos. A Dra Fischer acredita que a oxitocina e a vasopressina interferem nas reações químicas da dopaminha e norepinefrina, o que pode explicar por que o amor romântico se apaga quando o relacionamento se fortalece.
As endorfinas, os analgésicos naturais , também são importantes para os relacionamentos duradouros. Elas produzem uma sensação de bem-estar, incluindo um sentimento de calma, paz e segurança. Assim como a dopamina e a norepinefrina, as endorfinas são acionadas durante o sexo, o contato físico , o exercício físico e outras atividades. De acordo com Michel Research Center, de Londres, elas induzem a uma dependência semelhante à das drogas.(How stuff works, 2008)
Pelo víeis filosófico:
Jogos lingüísticos, comportamentos irônicos e patológicos aparecem como o contraponto para que o amor se sinta ofendido e se manifeste mostrando que é real. Seria o amor visto pelo víeis sado–masoquista.
            Nietzche, escreveu que “a maior parte da filosofia foi inventada para acomodar nossos sentimentos às circunstâncias adversas, mas tanto as essas adversidades como nossos pensamentos são efêmeros”, deduzindo que os sentimentos não o são.  
            Acreditava Nietczche que o amor chegava quando se tenta desejar o bem em sua totalidade para algo. Dizia que quando amamos juntamos as melhores propriedades das maravilhas e perfeições do mundo, e as considerações similares ao objeto amado, portanto, conclui-se que essa forma de amar o amor, pode distorcer a representação da realidade,trazendo muita dor e sofrimento .(Correia 2006)
            O amor aparece nas mais diversas áreas do pensamento humano, da poesia à imagem funcional do cérebro, da mitologia à patologia, da razão para o prazer à motivação para o crime.
            Platão em o “O Banquete”, foi o primeiro a comentar a existência de dois ou mais tipos de amor: o “Amor Autêntico” é aquele que liberta o indivíduo do sofrimento e conduz sua alma ao banquete divino. A esse amor Eros toma a face do filho de Afrodite Urânia,a celeste, divina e elevada. É o amor impessoal e altruísta.  
            No “Amor Possessivo”, Eros se torna vulgar e profano, filho de Afrodite Paudênia, a popular assume o movimento oposto, no qual persegue o outro como um objeto a devorar, possuir e sufocar. É o amor co-dependente na sua plenitude, promovendo sofrimento e angústia.
            Muito tempo depois de Platão , esta conceituação foi retomada por Immanuel Kant, onde somente o “Amor Ação” é o verdadeiro amor altruísta e aceitável, uma vez que se manifesta em preocupação verdadeira e desinteressada pelo bem estar do outro, da pessoa amada. Seria também o Eros Celeste.
            Em contrapartida falava do “Amor Paixão”, narcísico, egoísta e impossível de se controlar, voltado aos interesses próprios, manifestando o desatino e desprezo pelo outro.(Platão,1996) Na idéia de Kant, o Amor Paixão tende a satisfazer muito mais a quem ama do que quem é amado. Seria o Eros Vulgar e a sua contrapartida nas relações co-dependentes seria encontrada na onipotência e controle do familiar adicto; estariam a serviço de um processo de defesa aos abusos físicos e/ou psicológicos submetidos à exposição da adicção.
            A fantasia do poder sobre o outro devolveria a quem ama, a sanidade e segurança pedidas.(Dias, 2006)
            Pelo víeis psicanalítico:
            Possivelmente o comportamento co-dependente se desenvolve pelo tipo de ligação não resolvida na primeira infância. “Esta tem início na relação mãe /bebê, ressaltanto que nela ficam incluídas a relação do pai com o bebê, da mãe com o pai, dos avós, e outras relações próximas e suas expectativas, condições, cultura e o momento que estão vivendo”.
            Esta relação seria específica daquela mãe com aquele bebê, com seus conteúdos inatos, hereditários e desenvolvidos, portanto, o que acontece, é algo oriundo daquele vínculo que não se estruturou, e a mesma mãe pode ter uma ligação diferente com outros filhos. O bebê assim , de forma compulsiva e inconsciente, repete aquela relação.
Se a mãe não pode ajudar a estruturar um ego, por também não tê-lo desenvolvido é porque naquela relação e momento não teve condições para isso, a criança desenvolve um ego frágil.
            Seu superego, por sua vez sendo herdeiro das influências parentais, quando estas estão confusas, fica sem parâmetros reais, idealizado, num momento fazendo requisições desmesuradas, em outro sem exigência nenhuma. Seus desejos, conseqüentemente ficam recalcados, e quando podem  se soltar, o fazem como se não houvesse princípio de realidade, somente guiado pelo principio do prazer.   
            O ego, sendo pouco estruturado, não consegue lidar com esse superego imperativo e com esse id demandante, além, da realidade que quer se impor. Deste modo deve acirrar seus mecanismos de defesa, que por terem pouca flexibilidade trazem muito sofrimento e dificuldade de mudança. Além disso, o uso indiscriminado desse mecanismo de defesa leva o indivíduo à não ter consciência de muitos de seus sentimentos, que dessa forma permanecem inconscientes.   
            São indivíduos que sentem muita angústia, uma vez que o ego fica sempre alerta, sentido perigos no mundo externo e interno. Sentem também muita culpa devido às exigências desmedidas do seu superego.(Humberg,2003)
Ainda no Banquete Aristófanes em seu discurso sobre os seres andróginos, marca a busca do homem, “daquele” ou “daquilo” que lhe faltava, Eros aparece como a energia que mobiliza o homem em busca de sua necessidade (amor e completude) através de sua outra “metade”.(Dias,2006)
            Os co-dependentes espelham suas atitudes num comportamento simbiótico, como se fosse um só , um a metade do outro, como os “andróginos de três sexos” citados por Aristófanes.
Sentem-se inseguros e com muito sofrimento e buscam no outro, o remédio e alívio para as suas dores físicas e psíquicas. Se a relação é parental, fica mais reforçado o comportamento “de dois fazer um só e assim reforçar a antiga necessidade de perfeição”.
            Winnicot (1990) e Bleger (1997), destacam a importância das primeiras relações para o desenvolvimento dos indivíduos.
            Winnicot (1990), descreve o conceito de “mãe suficientemente boa” como aquela com boa capacidade de holding, que é “não só o segurar físico do lactente, mas também a provisão ambiental total anterior ao conceito de viver com”. Isto implica os cuidados com o bebê, a necessidade deste de estar fundido com a mãe, e sua percepção dos objetos e dele próprio.
            Na fase holding, o bebê se torna gradualmente capaz de experimentar a ansiedade de separação. Isto se dá a partir da sustentação dada pela mãe. Dessa forma vai se tornando uma pessoa com individualidade própria.    
            Winnicot (1990) diz que quando a mãe é suficientemente boa, o desenvolvimento ocorre de forma adequada e o bebê aprende a capacidade de estar só. Estar só na presença de alguém pode ocorrer num estágio bem precoce, quando sua imaturidade é naturalmente compensada pelo apoio da mãe.
            Na medida que o tempo passa, o indivíduo introjeta essa figura, e dessa maneira torna-se capaz de ficar só, sem o apoio ou símbolo materno. Quando as coisas não vão bem, o bebê reage tornando-se muito demandante, necessitando da presença física da mãe ou de alguém para se acalmar, ou fica sem reação, mascarando suas necessidades que a mãe não pode escutar.   
              Winnicot (1990) se utiliza de conceitos desenvolvidos por Melaine Klein(1970) e diz que a capacidade de se estar só, depende da existência de um objeto interno bom, junto à confiança em relação às realidades internas, que lhe assegurem auto-suficiência para viver, de modo que se fica temporariamente capaz de descansar contente, mesmo na ausência de objetos estimulantes externos.         
            Humberg (2003) sinaliza que a maturidade e capacidade de estar só, significam que o indivíduo teve oportunidades através da maternidade suficientemente boa de construir uma crença num ambiente benigno. Essa crença se constrói através de gratificações instintivas satisfatórias. Conseqüentemente podemos dizer que o dependente de vínculos não teve uma maternagem suficientemente boa e não desenvolveu a capacidade de estar só (Kalina, 1990)
            O co-dependente não suporta a solidão, justamente porque nela fica suporte, ou melhor, porque na solidão volta a experimentar a insuficiência do apoio recebido quando era criança.
            Esse reencontro com o ausente (os afetos), tem para o co-dependente o efeito de uma catástrofe. O fato da solidão, equivaler à vivência de morte, deve-se precisamente a isto: a solidão adquire o caráter de uma experiência na qual o dependente se percebe vazio, isto é , sua inconsistência.
            Trata-se de um sentimento de impotência irreversível, na medida em que dominado por ele, o co-dependente não tem a que ou a quem recorrer para suportá-lo e , muito menos ainda para superá-lo.
            Assim o ato drogadicto, de drogas ou pessoas,pode ser visto como uma prevenção: o dependente e co-dependente o realizam para evitar que se manifeste, com toda sua contundência, a experiência desintegradora da solidão – morte. Paradoxalmente, consumado este ato de maneira sistemática (isto é claramente adictiva), vê-se favorecida a irrupção da definitiva aniquilação.
            Winnicot (1960), diz que quando a mãe não é suficientemente boa, e não tem capacidade de holding, o bebê vai desenvolver o falso-self, que pode ser explicado através das primeiras relações objetais. Neste momento o bebê ainda não está integrado e é dependente da sua mãe. Periodicamente um gesto do bebê expressa um impulso espontâneo. A fonte desse gesto é o verdadeiro self. Dependendo da maneira como a mãe responde  a esse gesto, ele poderá ou não desenvolver a sua espontaneidade.
            Se a mãe alimenta a onipotência infantil, esta reforça o ego do bebê. Se não for capaz de complementar a onipotência do bebê, e substitui o gesto deste pelo seu próprio, este desenvolverá submissão, que é o estágio inicial do falso-self, resultado da inabilidade da sua mãe de sentir as necessidades do seu filho.
            O self verdadeiro não se torna uma realidade se não houver êxito repetido da mãe em complementar a onipotência do bebê. Havendo, o bebê pode, aos poucos , ir renunciando a onipotência. Pode começar a gozar a ilusão do onipotente criando e controlando. Essa é à base da simbolização. Entre o bebê e o objeto existe algo, uma atividade ou sensação e isto os une. E se há algo separando ao invés de unir, a função de simbolização fica bloqueada. Podemos ver nos dependentes de vínculos a dificuldade de simbolização que viria dessa relação precoce. O desenvolvimento do falso self funciona como uma defesa à exploração do verdadeiro self.(Humberg, 2003)
Conclusão:
Assim como na dependência química, ainda não se tem uma terapia única que satisfaça e atenda a demanda da adicção de drogas ou pessoas. O que se possui são experiências terapêuticas com bons resultados, como os grupos de auto ajuda , através das partilhas  e do reforço que é feito ao ego ; da literatura sobre co-dependência,  para os esclarecimentos sobre a adicção; da terapia familiar que poderá ser cognitiva , comportamental e de base analítica; e a terapia individual, com profissionais psicanalistas ou psicólogos abertos a esse olhar da adicção.   
Quando o co-dependente se autoriza a falar sobre a sua dor, as coisas começam a mudar, enfrentam seus medos e inseguranças e descobrem que a “dor é necessária , mas o sofrimento é opcional”.Essa autorização poderá vir de um grupo de ajuda e/ou  de uma abordagem sincera do  terapeuta a respeito da co-dependência, vinculada aos construtos psicanalíticos como suporte e apoio.
O que não se pode é fechar os olhos para a dependência e co-dependência químicas,e excluir qualquer forma de tratamento que proporcione a recuperação dos adictos na “ativa”, pois como dizem nos grupos de ajuda: “a doença da adicção é incurável, progressiva e fatal”.
Dentro dos vários princípios terapêuticos, os dependentes e co- dependentes, poderão encontrar um lugar de felicidade e realizações dos propósitos individuais , apoiados nos próprios recursos, nem que seja “só por hoje”!
*Silvana Sobral Pinto Dias é Arquiteta, Membro Efetivo do Círculo Brasileiro de Psicanálise - RJ, Pós Graduada em Dependência Química Pela Universidade Federal De São Paulo, Professora de Dependência e Co- Dependência Químicas no CBP –RJ.
Abstract
Control , manipulation and suffering are hallmarks of a co-dependence relationship which, although can be mistaken for an obsessive neurosis, has important particularities, very similar to chemical dependence.
The aim of this study is to analyze co-dependence in a neurochemical, philosophical and psychoanalytic way, where the question to be “how to overcome another familiar inheritance?”
Keywords
Relationship; control; anesthesia; drugs; compulsion; denial; co-dependence
Referências
1-Livros:
Bleger,J.Simbiose e Ambigüidade, Rio de Janeiro.Editora Francisco Alves, 1997.
Laranjeiras, R.;Bordin,S.;Nelliana,F.Dependência Química, São Paulo. Editora Roca Ltda, 2004.
Kalina,E. e Col. Drogadição hoje. Indivíduo, Família e Sociedade, Porto Alegre. Artes Médicas,1990.
Norwood,R. Women who Love Too Much : Jeremy P. Tarcher,nc,Los Angeles 1985.
Platão,Diálogos I ,Menon, Banquete e Fedro, Rio de Janeiro. Editora Ediouro, 1996.
Winnicot,D.W. Distorção do Ego em Termos de Falso e Verdadeiro Self in O Ambiente e os Processos de Maturação, Estudos sobre a Teoria do Desenvolvimento Emocional, Porto Alegre. Editora Artes Médicas, 1990.
Winnicot, D.W. A Família e Desenvolvimento do Indivíduo, Belo Horizonte. Interlivros, 1980.
Winnicot,D.W. Tudo Começa em Casa, São Paulo.Martins Fontes, 1990
2-De publicações periódicas :                                                          Correia,W./SaberEnsinareAprender,www.saberensinar.uiniblog.com.br/105099/ainda-o-amor.html/p.1-3,setembro 2006.
 “How Stuff Works- autores do How Stuff works”. Publicado em 11 de setembro de 2000( atualizado em 19 de agosto de 2008) http//pessoas.hsw.uol.cpm.br/
3-De artigo em revista:
Black, Cláudia, Phd. It Will Never Happen to Me: M.A.C. Priting and Publications Divisions, Denver, 1981.
Toffoli,A; Wanjstock,A; Mantel,M.M.B; Biscaia, M.F.C. Co-Dependência:  Reflexão Crítica dos Critérios Diagnósticos e uma Analogia com o Mito de Narciso e Eco. Informações Psiquiátricas; v.16,p92-7,1997.
Wegscheider-Cruse, S.;Choisemaking: Health Communications Inc, Pompano Beach,Flórida, 1985.
 4- De monografia:
Dias,S.P.S,O Banquete de Platão e o Amor Co-dependente. :São Paulo.Universidade Federal de São Paulo, Unidade de Álcool e Drogas,2006.
5-De tese:
Humberg,V.L./ Dependência do Vínculo: Uma Releitura do Conceito de Co-Dependência. São Paulo.Universidade de São Paulo,2003.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário